Ai vale bujardas, é?

O governo fez birra. O ministro das Finanças não pode castigar os funcionários públicos, pensionistas, desempregados, bolseiros, pessoal de baixa e essa gente toda como mereciam e agora amuou.

Eu não sei sobre vocês, mas a mim apoquenta-me que as pessoas que lideram o governo tenham este tipo de atitudes pré-adolescentes. E basta que alguma coisa não corra como eles querem, coisa a que, estando na posse do poder executivo e tendo o legislativo a seu mando, não deveria acontecer. Mas, em mais um erro de cálculo, o governo esqueceu-se de que as instâncias de poder nas democracias ocidentais, à la Locke e Montesquieu, são três (foi só um desvio de 33%, dirão). Maldito Poder Judicial!

Pois bem, como quem dá uma navalhada na bola quando os outros marcam um golo de bujarda, coisa que o nosso ministro das Finanças nunca seria capaz fazer, diga-se, o governo amarrou o burro. E agora não joga ninguém.

Não há pai que tenha mão nestas crianças embirrentas e o avô está no Centro de Dia porque não me consta que o Presidente Cavaco Silva, de longe o nosso pior Chefe de Estado desde Contra-almirante Américo Tomás, vá deixar a sua tigela de gelatina para fazer seja o que for.

Não resta muito às pessoas sensatas que gerem organismos públicos senão ignorar esta ordem e actuar na mais flagrante desobediência civil. Isto para que o Estado opere. Chegámos a este ponto. Para que não pare rigorosamente tudo à porta do ministério das Finanças, alguém terá que desobedecer a uma ordem directa do governo.

O nosso governo já não vai lá com sentido de estado ou apelos ao mais elementar patriotismo. Já estamos no nível da imaturidade e da instabilidade emocional. Porque o que este governo precisa é de psicoterapia.

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Thatcher mustnt die

A indignação selectiva deve ser das coisas que mais me diverte. Parece que não foi há poucas semanas que morreu o Presidente Hugo Chavez da Venezuela e se fez um folhetim de tudo aquilo.

Entre dizer-se que já tinha morrido semanas antes, à polémica sobre se devia ser embalsamado, à “suspeita de morte por envenenamento com cancro“, a morte de um líder populista sul-americano não era razão para se poupar no ridículo (muito dele, como em vida, autoinfligido).

Já com Margaret Thatcher não se pode passar o mesmo. Passa-se mas, para os mesmíssimos que eram capazes de cuspir no caixão de Chavez, é indigno que se passe. E porquê? Eu tenho algumas suspeitas.

Em primeiro lugar, porque era branquíssima e europeia, dava-se ao respeito e, como tal, não pode ser criticada, até vilipendiada, na ocasião da sua morte. É um momento solene, rigorosamente e muito britanicamente prude, sem o circo carpideiro das Américas.

Em segundo, e este era capaz de ser o mais magoaria a Dama de Ferro se viessa a saber de que forma a sua morte seria tratada, porque era mulher. Terão passado assim tantos anos pelo Thatcherismo para que nos esqueçamos do papel pioneiro que ela teve na defesa (quase involuntária) do papel das mulher? Que jeito tinha dado a própria Maggy para lembrar todos que escusam de estar com paninhos quentes porque ela aguentava qualquer bronca.

O problema, para mim, é mesmo esse. Margaret Thatcher não acharia graça nenhuma aos punks que colocaram o “Ding Dong! The Witch Is Dead” no top dos downloads, nestes dias que se seguiram à sua morte. Mas o que ela, que não era estranha a uma citação dos “Monty Python” aqui e ali, recusaria terminantemente seria os que a defenderiam como se fosse uma coitadinha.

Lembro-me de, quando morreu o Gen. Spínola, o comunicado do Partido Comunista Português começar com qualquer coisa como “honrar os mortos é honrar a verdade…”, para a seguir discorrer a cassette do costume, versão “Papel do Spínola na Reacção”. Para mim, o PCP foi, com isso, quem mais honrou o homem, na sua complexidade, na sua fragilidade, no que, para eles, tinha de errado e até de mau.

Honrar quem morre, principalmente no caso de alguém como Thatcher, é falar dessa pessoa como se estivesse viva. Atacá-la, até gozá-la, é o reconhecimento salutar da sua força e do traço de humanidade que perdurará nas memórias dos outros, esse traço ténue que nos distingue do zero absoluto e nos faz fintar a morte, só um bocadinho.

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Sócrates e a liberdade de expressão

Eu sou a favor da liberdade de expressão. Isso, a maior parte das vezes, é uma coisa tão bonita de se dizer quanto fácil de se defender. Mas há alturas, quando se torna difícil, em que rapidamente me vejo muito desacompanhado deste lado da barricada.

Não entendo, porque não entendo, a fleuma reaccionária das pessoas que acham que o antigo Primeiro-ministro não deve ter um espaço de comentário numa estação de televisão pública. Isso sim, é totalmente inaceitável.

O Sócrates, o Durão Barroso, o Guterres, até o Cavaco, todos estão particularmente avalizados para falar da situação actual do país. Aliás, deviam estar obrigados, senão legalmente, moralmente, a dar esse contributo. Acho até, na minha amorosa ingenuidade, que pode ser um excelente fórum para os questionar sobre os seus papéis nas últimas décadas portuguesas, principalmente o de José Sócrates. E tenho por base da minha crença na liberdade de expressão a minha fé inabalável nas pessoas, na sua bondade e sentido crítico. Acho, por isso, que deixar o ex-Primeiro-ministro só vai ajudar a elucidar as pessoas sobre a sua verdadeira natureza e esclarecer o debate público. Eu e a minha inocência. É amoroso.

O que não quero deixar de dizer é isto: a reacção virulenta das pessoas à ideia de ele poder ser comentador está a assustar-me. Estamos todos a cair numa vertigem perigosa de raiva e frustração, a mesma que, reza a história, leva a que os sistemas de direitos, liberdades e garantias sejam postos em causa pelas próprias pessoas que supostamente defende. E, por isso, vou-me entreter a declarar alguns princípios (daqueles que valem até quando não nos são pessoalmente cómodos), para ver se ajudo as pessoas a reorientarem-se:

1. Defender liberdades, às vezes, custa. É nesses momentos que é preciso defendê-las com mais vigor.

2. Em democracia, o liberdade de expressão é um direito inalienável, sagrado, defendido na Constituição e, por isso, acima de qualquer outro. Os únicos limites são os da própria Constituição e passam pela protecção dos outros direito inalienáveis dos indivíduos. Ter uma coluna de comentário ou um programa de televisão, em que não se ofenda ninguém, não é contra a liberdade de expressão e, por isso, é um direito sagrado. Coartá-lo é infringir um dos sustentáculos da democracia e opor-me-ei com toda a veemência a qualquer tentativa nesse sentido.

3. Assim como acho ridícula e até perigosa (se recolher assinaturas suficientes) esta petição e qualquer outra que vise proibir seja quem for de falar. Uma coisa é interromper o Miguel Relvas numa conferência. Outra é, concertadamente, impedir que alguém, por muito odioso que seja (e o Sócrates está a um nível só alcançado pelo próprio Relvas), de ser convidado e falar, no pleno exercício da sua liberdade de expressão.

4. Em democracia, também temos todos o direito a mudar de canal. Eu, inclusivamente, nem sequer televisão tenho. Não gostam do Sócrates? Eu também não! Acham que ele é um dos grandes responsáveis, quem sabe se o maior, do estado actual do país? Eu também! Acham ridículo que ele venha agora fazer comentário político, como se nada fosse? Façam como eu: não vejam! Não podem, porque não podem, é impedi-lo de falar. Aliás, ele que fale, que é para as pessoas não se esquecerem de quem ele é.

5. Podemos todos ir para a porta da RTP e, como se tem feito com o Miguel Relvas e o Passos Coelho, mostrar o que pensamos do José Sócrates. Como nada o impede a ele, nada nos impede a nós de falar, gritar até, dentro de certos limites do civismo, devidamente toldados pela paixão dos argumentos. Sem pedras, mas com um insulto, aqui e ali, que nunca ninguém morreu por isso.

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O Fim da Europa – pt.1

Lembro-me de reparar, numa altura em que me dava muito com um grupo de amigos alemães, que, tendencialmente, eles tinham uma relação complicada com os avós. Havia uma barreira de silêncio entre eles, mais ou menos da minha idade, talvez um pouquinho mais velhos, e a geração dos seus familiares que, durante os anos 30-40 do sec. XX tinha 20 ou 30 anos, a geração que viveu o pesadelo nazi e “que podia ter feito alguma coisa”.

Nem por um segundo vou comparar com essa época o que está para acontecer à Europa agora. Ou sequer o que está para acontecer. Acho realmente que se deram passos a mais, por gente a mais, para se poder voltar atrás. É tarde de mais para voltar a essa época porque se gerou demasiada concórdia e amor à paz. Há demasiados casais Erasmus e demasiadas pessoas a falar demasiadas línguas que não a natal para a guerra entre os povos da Europa fazer sequer sentido.

Mas temo que, daqui a umas décadas, entre nós e os nossos netos haja uma barreira intransponível de incompreensão. Temo que os olhos deles carreguem uma questão a que não conseguiremos responder, que não conseguiremos sequer enfrentar: “Como é que puderam permitir que isto acontecesse?”

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Scat Dream

Estar. Ser. Sem sonhar, nem querer. Ocupar um espaço, este espaço. Acabar. Ponto. Começar e caminhar até ao fim. Estar. Ser. Que o mundo é tão mais fácil no infinitivo e infinito que é ser sem fim. Ponto. Muda-se o tempo verbal e o tempo confunde-se. Houvesse. Pudesse. Quisesse. Mas não quero. Que o sonho também inebria e engana. Sou. Estou. O presente é imperativo e dura o tempo de uma palavra, tornando-se lentamente num pretérito esquecido. Sou. Estou. Ponto. Vírgula. Que o agora também tem vírgulas e reticências, o agora não vive nele. Viver. Ponto. No infinitivo que é infinito. Vivo. Ponto.

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Filho de uma mulher portuguesa

É óbvio que continua a fazer sentido dedicar um dia às mulheres. É uma minoria social (que, paradoxalmente, representa uma maioria absoluta das populações portuguesa e mundial) a quem, ainda hoje, não é reconhecido o direito a um salário igual por trabalho igual, de acesso às posições de chefia. Isto para não falar na vergonha dos números do desemprego, que continua a afectar mais as mulheres que os homens. Isto para não falar dos buracos negros, representados nesta excelente infografia do Guardian, da falta obscurantista de acesso aos mais básicos direitos civis.

Também não vou perder tempo com a discussão sobre se este é o Dia “da Mulher” ou “das Mulheres”, que me diverte todos os anos. O meu lado mais revolucionário (que se dá muito bem com o meu lado feminino, diga-se) gosta do racional que os defensores da expressão Dia “das Mulheres” usam e que está associado a uma noção de as mulheres como um grupo ainda alienado, ainda não totalmente consciente do seu poder se agir como um bloco unido. Isto apesar de já serem decisivas para a definição dos passos a trilhar pelas famílias e até pelas nações, como aconteceu nas últimas presidenciais norte-americanas.

O que eu registo é que este dia 8 de Março de 2013 está a ser vivido mais intensamente pelas mulheres. Seja porque vivemos a Era das Redes Sociais e dos Memes, que torna fácil cristalizar o valor de ser humano no feminino. Seja porque as minhas amigas e familiares, as mulheres da minha vida, assumem mais vocalmente, mais cientemente, mais amadurecidamente, mais emancipadamente o seu orgulho de ser mulher.

O que registo, acima de tudo, é uma geração de mulheres orgulhosas e reconhecidas, como eu estou, pelo papel das suas mães.

Sou o filho de uma mulher portuguesa, nascida no regaço frio da ditadura, que começou a trabalhar quando ainda devia estar a brincar, que casou quando ainda devia estar a namorar, e que criou os seus filhos, e amparou o seu marido nas momentos difíceis e tomou parte igual (quando não liderou) nas decisões difíceis. Que nos impeliu a todos para a frente, enquanto era a rocha, a casa a que sabíamos que podíamos voltar. A mão que eu ainda procuro, no escuro.

Foi ela, o trabalho dela, o afago dela, o silêncio presente dela, foi ela que tocou a minha família para a frente. Que tocou o meu país para a frente.

Agora cabe-nos a nós, a mim e às minhas irmãs, mães e mulheres portuguesas também elas, tocar o nosso país para a frente. E, a cada passo, cabe-nos lembrar que cada conquista é uma homenagem a ela. A elas. Às mulheres titãs que nos deram à luz.

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Soluções

O meu problema com o vídeo de cima não é concordar tão completamente com a fleuma só um bocadinho whiny deste novo símbolo da minha geração que não me consiga relacionar com quem não se revê nela, porquanto até me reveja, e muito.

E o meu problema com o vídeo de baixo não é discordar tão virulentamente deste símbolo do sucesso engravatado que ache que todas as pessoas que não pensam como eu são necessariamente tão insensíveis como ele.

O meu problema é perceber que estes dois mundos não comunicam, que se acham mutuamente exclusivos, que não se vêem como iguais e que nunca poderiam estabelecer um contacto. Que não vale a pena porque são, uns para os outros, casos perdidos.

De um lado, pensa-se que quem é precário é porque é demasiado burro, demasiado inflexível ou demasiado preguiçoso para não o ser. Do outro, que quem nasceu num berço de ouro nunca compreenderá as agruras, os sacrifícios e os sofrimentos de ter que fazer o seu caminho a partir de baixo.

Não é verdade. Não é verdade. O único problema das pessoas é acharem que são melhores que as outras, que os seus amigos, que não são tão bons como elas, são melhores que os demais, e que os desconhecidos são quem não cumpre as regras de trânsito, foge aos impostos e não deixa que nós e os nossos amigos andemos para frente. Não é verdade.

O maior problema, o único, na verdade, a grande e verdadeira barreira é a da desconfiança. Basta acreditarmos (um sentimento que eu associo à fé, diga-se) que os outros não são piores que nós para que o discurso passe dos problemas para as soluções. E, sinceramente, disso foi o que eu ouvi muito pouco. Quer no vídeo de baixo, quer no de cima.

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