A educação da minha vida

Há um facto inescapável: nascido de onde nasci, se não fosse pelo Sistema de Educação Pública da III República (aquele que todos se apressam a atacar), eu teria feito a 4ª classe e começado logo a trabalhar.

Como sou rapaz e o mais novo da família, podia ser que me deixassem ir até ao 9º ano e se as condicionantes não fossem demasiado pesadas, podia ser que, com o talento e o esforço, pudesse sonhar com uma escola profissional e até com a Universidade. Mas acho muito duvidoso.

A verdade é que os que se apressam a atacar o Sistema de Educação não têm a noção, a mais difícil de todas, do que seria se não existisse. Apontam-lhe os defeitos, coisa que nunca fez mal a ninguém, é certo. Dizem que há demasiados alunos, que os professores não têm a formação académica e pedagógica necessárias, que não têm, nem podem ter, autoridade numa sala de aula que evoluiu para uma amálgama de demasiado grande, demasiado informe, para que se consiga fazer outra coisa que não seja ensinar o mínimo denominador comum. É verdade. Temos um Sistema de Educação que pretende ser de alcance universal mas cujos resultados são “só” generalizados.

Mas não nos iludamos. O que a Educação vende não é, ela própria, uma ilusão. É uma via para o emprego, para a riqueza e para a cidadania.

Não nos podemos esquecer do colossal esforço que representou abrir as portas da escolas a milhares de alunos, construindo uma instituição que encontrou o seu papel no centro de uma dinâmica secular que envolvia pais, primos e amigos. Antes disso, a Educação era o privilégio de uma elite. Agora chega à maior parte e não estamos satisfeitos. Ainda bem, devia chegar a todos.

Entretanto, a Educação está aqui. Mudou o paradigma de como se cresce no nosso país e quem se apressa a apontar-lhe as falhas faz-lhe o maior de todos os tributos: espera, exige mais do estado, dos outros, até de si próprio (se bem que em muito menor grau, porque a educação dos outros é que foi errada, nunca a nossa). Pois eu tenho uma novidade: se o faz, pasme-se a alma, é nas costas da educação que teve.

Desengane-se quem pensa que Educação se deve restringir ao 9º ou mesmo ao 12º ano para aqueles que, “ao contrário de nós, não consegem ou não querem mais”. Que tamanho paternalismo, pensar assim! Para quem pensa assim, eu tenho outra novidade: mesmo que queiramos trabalhar como mecânicos ou electricistas, como modistas ou escriturárias, a academia e a vida universitária é algo por que todos devem passar. Forma-nos como adultos, como cidadãos, diria até que como patrícios desta república de direitos, liberdadese garantias universais. (Aliás, a verdadeira ilusão, para mim, está em pensar que essas profissões, algumas delas, pelo menos, vão durar para sempre e que não devemos pensar para além disso.)

Sim, já o disse e repito-o, quem defende o ensino profissional é, sempre, sempre, sempre, quem nunca pôs lá os pés por se achar demasiado bom para isso. Acharmos que só a nossa educação foi a melhor, que só a nossa geração e, dentro dela, que só a nossa escola, a nossa turma, a nossa família, que “nós somos melhores” é a única ilusão em todo este debate. Uma ilusão que, levada ao extremo do absurdo e do ridículo, levaria à conclusão que a Educação só faria sentido se estivesse ao excelso nível da nossa formação, que “ou isso, ou nada”, o que poria em causa o colosso que se construiu e que mudou a vida da minha geração. Que mudou a minha vida.

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