As pessoas que não gostam de pessoas – pt. 2

É um velho truque de alguma direita dizer que, quando a direita está a ser de direita, na verdade, está é a ser de esquerda.

Passou-se isso com o presidente Bush, nos Estados Unidos. No pico do seu intervencionismo arrogante, da sua invasão ilegal e injustificada no Iraque, os comentadores da “direita moderada” diziam que os “falcões” que andavam a aconselhar o presidente, de Karl Kove a Paul Wolfowitz, tinham vindo da extrema-esquerda e que aquilo era exactamente o que de pior a esquerda tinha. É preciso ter lata.

Agora passa-se o mesmo com a medida da redução da TSU para as empresas e respectivo off-set (and then some more) no aumento para os trabalhadores, a quinta-essência do ethos deste governo. Deste governo do PSD e do CDS-PP. Deste governo de direita. Disseram que isto é uma medida que destila o “falso liberalismo” de Passos e companhia num intervencionismo na vida privada “que tem que ser de esquerda”. Não queriam mais nada.

A esquerda, no seu pior, é tão sanguinária como o pior da direita, gota por gota. Mas a César o que é de César. A esquerda, em Portugal, nunca fez, nem sequer propôs, nada deste género. A esquerda, em peso, sem excepção (assim como a grandíssima maioria da direita, a bem da verdade), opôs-se a esta medida. Esta medida, esta em especial, fez as pessoas ver quais são as prioridades da tríade Passos-Gaspar-Borges, o primeiro porque só com aquilo que lhe disseram para preencher o vazio que lhe vai na alma, o segundo porque não sabe ser de outra maneira, o terceiro porque não gosta mesmo de pessoas. No caso do ministro e do consultor (não reconheço ao primeiro-ministro profundidade intelectual para isso), mostra que perderam a noção de que a economia se faz para as pessoas gerirem a sua relação com a Terra e executarem, mediante esse economia, o seu trabalho sobre os recursos e darem sentido às suas vidas. Mediante a economia. É um princípio teológico que lhes escapa, porque é da ordem da crença e da convicção, do que se sente sobre o que se pensa. E se não reconheço ao primeiro a capacidade de pensar, não reconheço a estes a capacidade de sentir.

A economia é um meio mas, para estas pessoas que não sabem lidar com pessoas ou, pura e simplesmente, não gostam delas, a economia é um corpo acabado, espantoso e controlável que as pessoas (as pessoazinhas, essa maralha informe de gente preguiçosa, incompetente, “sem produtividade”) só vêm atrapalhar com os seus anseios de humanidade. E merecem sofrer por isso. Merecem ver os salários cortados ao não valerem nada e os sonhos adiados, senão mesmo destroçados. É o cúmulo da mesquinhez. Porque, chego a essa conclusão, temos um governo que não gosta dos portugueses.

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Uma resposta a As pessoas que não gostam de pessoas – pt. 2

  1. Joana diz:

    Acho que é mais: temos portugueses que não gostam de portugueses. Temos portugueses que não se sentem portugueses (há o eles e os “outros”, os portugueses).

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