É preciso ter laca

Estive, nestes últimos dias, a pesquisar dados sobre o desemprego e os fenómenos de pobreza e exclusão, em Portugal. Foi a pior coisa que podia ter feito a mim próprio.

Partilho apenas um par: 3,3% da população portuguesa não é capaz de garantir uma refeição de carne, peixe ou correspondente vegetariano, de dois em dois dias. São mais de 355.000 pessoas.

Fiquei a saber esta semana, enquanto me empanturrava em tudo o que um porco tem para oferecer ao paladar humano, que a experiência completa do uso da laca para o cabelo passa pela criação de uma pequena nuvem em que se submerge a cabeça. A nuvem não faz nada mais do que dar a ideia de abundância. E isso é algo de que o consumidor (que tem sempre razão e que merece sempre a “experiência completa”) não está disposto a abdicar. Deixem-me reforçar esta parte: independentemente do efeito de fixação (que é para isso que serve a laca), a incapacidade para formar esta nuvem configura uma falha inultrapassável e toda tecnologia que se desenvolva no sentido de mitigar o tamanho dessa nuvem é, do ponto de vista do desenho do produto, um passo no sentido errado.

355.000. Trezentas-e-cinquenta-e-cinco-mil pessoas, nossas compatriotas, cidadãs e cidadãos da nossa república, não têm o que comer hoje e não terão amanhã.

Não sou simplista ao ponto de apontar uma causa única para isso, ainda para mais com os meu próprios lábios ainda untados da mais suculenta entremeada que comi nos últimos  anos. Mas qualquer lista do top 5 tem que me incluir a mim. Sim, a mim. Não me posso esquecer disso. E não vale a pena vociferar contra quem está a ler antes de olhar, antes do mais, para mim próprio.

Dito isto, sim, convido-vos a fazer o mesmo.

Vivemos numa sociedade a todos os títulos bovina, que age de acordo com expectativas irreais, a mais perniciosa das quais sendo a de que vivemos num meio com recursos ilimitados. Não é verdade. Não.é.verdade. Vivemos no planeta Terra e nós próprios, no seu grande esquema das coisas, somos um recurso, um elemento de um ciclo sem idade, que nos transcende. A ideia de que podemos fazer buracos onde antes havia florestas e oceanos e montanhas e que, do outro lado, podemos simplesmente empilhar desperdício é, no mínimo, negligentemente criminosa. No máximo, é só criminosa. E, em Portugal, há 355.000 vítimas desse crime.

O outro dado: 9,0% da população, mais de 1.500.000 almas, vivem numa situação de privação material severa. Privação material severa. Não estou a falar de lacas e de nuvens. Estou a falar de frigoríficos e de casas e de refeições. Milhão e meio de pessoas, de um total de quase dois milhões que vive no “risco de pobreza” (os criadores de dados estatísticos deviam ganhar um prémio literário pelos eufemismos de que se lembram), isto é, com menos de 60% do rendimento mediano anual do país.

Também não sou simplista ao ponto de dizer que há uma só solução, uma bala mágica que resolva estes problemas. Mas vou dando pistas. Aqui vai uma: empresas externalizaram os custos sociais das duas prioridades comerciais. E externalizam-nos porque os consumidores externalizam as responsabilidades. Não é nada connosco.

(Um parêntesis para dizer que o Haiti, sim, era connosco. Portugal registou o maior volume de ofertas monetárias privadas aquando do terramoto do Haiti. Não per capita, em termos absolutos, no mundo inteiro. Isto porque nos compadecemos todos muito do miúdo que foi tirado dos escombros e festejou como se tivesse marcado um golo. Onde é que pára esse puto? Ninguém sabe. Onde fica o Haiti? Em que oceano? Com que outro país partilha a ilha de Hipaniola, local do primeiro povoado europeu  no “Novo Mundo”, fundado pelo próprio Colombo? Será que, com este dado, alguma das pessoas que fez a compungida transferência bancária já me poderá dizer em que oceano fica? Nada disso interessa.)

Não, os trezentos-e-cinquenta-e-cinco-mil, esses é que não são nada connosco. Para eles não há tranferências. Para eles, só fica o azedume com que olhamos para a nossa folha de salário e reclamamos com a quantia que o estado nos “levou”. Em vez de ficar contentes pelo que podémos ajudar. Em vez de darmos mais, a quem precisa mais.

Não quero dizer que a solução está só em nós, como não disse que a culpa é só nossa. Mas arrisco dizer isto: o fundamento de qualquer resposta tem que passar pelo nosso comportamento. E tem que começar no nosso comportamento enquanto consumidores. Na nossa sociedade, a cidadania activa começa no consumo e temos que ser exigentes. O contrário, essa ignorância em que preferimos viver, tem resultados de que não nos vamos poder demitir para sempre.

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Uma resposta a É preciso ter laca

  1. sara diz:

    Não podia concordar mais.

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