À Mesa

Há a clássica recordação do jantar de Natal. A toalha de linho branco, o brilho dos talheres de prata, a casa quente e nós de bochechas rosadas a contar os segundos para a meia-noite. Lembro-me dos longos almoços de Páscoa, nós todos à volta da mesa posta com o serviço de porcelana azul-cueca que agora orgulhosamente herdei. Lembro-me também dos jantares de todos os dias, nós os quatro, em que, já ensonada, relatava os feitos do dia e trocávamos banalidades como se o fossemos fazer para sempre.

Depois de a minha mãe morrer, foi o hábito que mais me custou a perder. Durante meses, o meu inconsciente em denial funcionava com fórmulas matemáticas que insistiam em permanecer: quatro pratos, quatro copos, quatro garfos…

Hoje tenho a minha casa e há poucas coisas de que goste mais do que ter convidados para jantar (e para almoçar). E, seja num jantar barulhento em que o vinho nos empurra para a galhofa, seja num jantar de famiglia num domingo à noite, ou num almoço em que junto a família toda na minha casa de jantar, há sempre um momento em que me encosto e em que a minha mente se afasta um pouco para fotografar aquele instante.

Ontem, descalça, fazia crepes com pouca destreza mas imensa vontade. Tinha dos que mais gosto à minha volta, fumando um cigarro nas escadas de incêndio, sentados num pequeno banco junto ao chão, policiando a forma como cozinhava. E desse momento guardo uma polaroid do que é estar feliz.

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