Jarreteiras

Não vou entrar na polémica à volta da suposta qualidade ou falta dela do The Dark Knight Rises. É um filme de geeks para geeks e, por isso, funcionou perfeitamente comigo. Aliás, imagino que não tenha sido só comigo.

Em vez disso, vou meter-me de cabeça noutra polémica. Fui ver o Moonrise Kingdom e, sim, tendo até gostado, não adorei. Ok, wait for it… here it comes. É verdade, uma vez mais em contra-corrente (pelo menos em relação ao meu inner circle de amigos), fui com uma expectativa à entrada do filme que não foi correspondida. Aliás, talvez o facto de ter expectativas tão baixas em relação ao último installment da mais recente trilogia do Cavaleiro das Trevas o tenha ajudado de sobremaneira. Alguma coisa ajudou.

Mas voltemos ao Moonrise Kingdom. A minha pergunta é: pode um universo tão perfeitinho, construído tão meticulosamente, sugar a vida às personagens, às suas histórias, à sua pretensa humanidade? A quem disse que sim, e que a prova disso é o filme de Nolan, eu respondo que sim, e que basta ver o que  Wes Anderson fez a um conjunto de actores de eleição, de Bill Murray a Harvey Keitel, ainda para mais coadjuvados por casal de jovens tão expressivos, quer um, quer outro, rapidamente substituídos pelos respectivos fetiches por chapéus de guaxinim e pares de binóculos. Todos muito bem enquadrados, isso de certeza.

A forma substituiu-se à substância, o contador à história. É suposto quem vê um filme (como quem lê um livro ou ouve uma história) destacar-se das fórmulas, das linhas com que se cose, e que elas actuem a sua magia que nos faz cair num transe em que o irreal se torna real, aliás, toda a realidade que nos ocupa a mente e a alma durante aquele bocado. Ali não. A analepse para um ano antes é declarada às claras com o típico “One Year Before” e o narrador (ele próprio uma prolepse?) surge no menos instintivo dos instantes, uma figura bizarra a anunciar que as coisas normais, por estranho que pareçam, raramente vão voltar a aparecer durante o que sobrar do filme. Ok, I get it.

Ou então não foi nada disso. Se calhar, foi só a figura do Ed Norton de calções e meias até ao joelho, acompanhadas das respectivas jarreteiras, que me fez lembrar os velhos tempos e o trocadilho tantas vezes atirada à minha cara, de que os escuteiros não são mais que “um bandos de crianças vestidas de parvos, lideradas por um parvo vestido de criança”. É que quem vos escreve é o dirigente da Alcateia dos Lobitos do Agrupamento 797 – Nova Oeiras, Corpo Nacional de Escutas, associado não-activo Miguel Maia.

It’s all a little too close to home, perhaps.

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4 respostas a Jarreteiras

  1. Só para dizer que o The Dark Knight Rises pode ser muita coisa, mas perfeitinho não é de certeza, aliás, é exactamente o oposto (desarranjadinho?). E meticuloso ainda menos. Quanto ao resto, são questões de gosto.

    • Mmh, quando falo em “geekness”, falo precisamente dessa qualidade arranjadinha, de referências que só fazem sentido a quem tiver notado nos detalhes dos outros filmes (um exemplo: o Ra’s Al Ghul que já tinha falado em “outra vida” com uma família, no Batman Begins, esse tipo de coisas).
      Eu acho que diz bem com o pessoal (em que me incluo, um bocado) que gosta dessas regularidades reconfortantes, fãs desse tipo específico de histórias aos quadradinhos (que não, de “comic” não têm nada). Pode parecer confuso para quem não tenha as referências todas, ou se queira ter que dar ao trabalho de as manter vivas na memória a todo o instante (non geeks :P), mas que fazem sentido naquele universo específico.

      • Uma throwaway line do Liam Neeson no primeiro filme acerca de ter perdido a família enche-te assim tanto as medidas? Ok, mas não sei se isso te qualifica como geek (geek é o gajo que leu as BDs todas e mais não sei quê). E, de certeza, que não faz dos Batmans filmes bem amanhados. Ah, não tive grandes problemas em perceber o filme, a não ser quando o dia se transformava em noite em segundos e vice-versa ou quando as personagens, que estavam juntas há uma cena atrás sem problemas, tinham de repente muita emergência em encontrarem-se e era tudo muito difícil. Ou seja, tive dificuldade de compreender o desleixo. Que num filme tão caro ninguém se tenha lembrado de escrever um argumento em condições.

  2. sara diz:

    o moonrise kingdom está assim para o genial. é puro, cheio de forma admito mas mais cheio ainda de substância. tenho pena q n tenhas visto.

    eu gosto do batman e confesso saí em extase do filme anterior. este achei acima de tudo uma seca, diálogos maus e concordo com o lameira, um argumento pobre pobre.
    se não sou geek, pois não sou, mas fiquei desapontada com tanta forma e tão pouca substância 😛

    beijinhos

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