Toponímia Criativa

Nem toda a toponímia criativa de Lisboa é má.

Já se sabe que a maior parte é. A maior parte é suscitada, mais ou menos voluntariamente, da perguiça comercialona de quem inventa nomes para marcas que as outras pessoas, mais perguiçosas ainda, não se dão ao trabalho de rejeitar. São as pequenas incursões de um marketês acéfalo no conforto dos neurónios que se recusam a desligar, fazer o quê? É esse linguajar parvo dos quinze-percento-de-saldo e do desconto-em-cartão. Nunca percebi essa expressão, ela própria uma espécie de toponímia criativa, que trata um pedaço de plástico como se fosse uma localidade. Levada à sua única conclusão lógica,a  expressão significaria que só teríamos o desconto se fizéssemos compras lá, “em Cartão”.

A primeira que vêm à cabeça, como foi muito bem lembrado pelo camarada de luta João Lameira, é a grotesca invenção de um novo local, bem no centro histórico da cidade: a “Baixa-Chiado”. Compreendo o dilema de quem, colocadas as portas da estação do Metro tão distantes uma da outra, tinha que decidir um nome e, reclinando-se numa cadeira com estofos de cabedal, decidiu não decidir. É muito menos compreensível a adopção popular do termo que leva à mais repetida conversa de surdos:

– Encontramo-nos na Baixa-Chiado.

– Mas na Baixa-Chiado, onde?

Spin-offs menos badalados desta sitcom podem ver-se (sempre associados a estações e apiadeiros) em enganos como “Roma-Areeiro” ou a ainda mais enganosa “Alcântara-Terra vs. Alcântara-Mar”, duas versões da mesma estação que distam, quem sabe, um quilómetro inteiro uma da outra. Ainda assim, dia após dia, milhares de pessoas atravessam aquele corredor gélido e enferrujado que, ao observador mais incáuto, poderia parecer dividir as duas Coreias, em vez de unir as duas Alcântaras. Penso nelas e vejo-as, perguntando-se todo o santo dia, se não seria mais fácil simplesmente criarem uma linha de comboio entre as duas estações.

Mas nem todas as invenções toponímicas são más, repito. Há tempos falava-se da hipótese de se mudar o nome da Estação de São Sebastião para Estação “El Corte Inglés”. Logo se levantaram em estremecido arrebatamento as heráldicas vozes dos residentes mais velhos, do Bairro Azul até quase às Picoas. Pois eu sou pela mudança! Acho mais honesto. Sempre chamei àquilo o Corte Inglês, porque, antes de haver lá o Corte Inglês (insisto neste grafismo), era uma estação a que dedicava tanta atenção como a que dou, ainda hoje, à do Intendente (a necessária para não sair lá por engano). Mas não lhe chamem de “El Corte Inglés”; pelo amor de Deus. Dê-se-lhe o nome que merece, que é o dela. Assim como o problema do Colégio Militar-Luz (outra elisão toponímica grotesca, repare-se) se resolvia chamando-lhe a Estação do “Colombo”, chamem àquela a Estação do “Corte Inglês” (atenção, lido “córte”, que os cortesãos ingleses não são para aqui chamados).

Toda a língua é engano. Aos puristas da língua, que mais depressa condenam ao degredo quem comete um erro gramatical do que quem comete um crime fiscal, digo e repito apenas isto: “toda a língua é engano”. O português é latim erradíssimo, de fazer Vírgílio dar voltas na tumba. Abrace-se o erro, portanto. Abrace-se o engano.

Hoje vinha a subir a rua quando um senhor, de telemóvel ao ouvido e com ar de quem não sabia onde estava, me perguntou:

– Desculpe, que rua é esta?

– “É a Rua do Conde de Redondo”, disse, com total lisura e correcção toponímica.

– “Estou no Conde Redondo!”, vociferou para o telemóvel, sem sequer me agradecer.

O Conde Redondo.

Não sei qual a qual dos Condes de Redondo, essa formosa vila alentejano onde, de resto, nunca estive, se consagrou aquela rua. Não faço ideia se houve mais do que um e, senão, que de tão especial fez o Conde de Redondo para merecer dar nome a uma artéria que, bem vistas as coisas, até une marcos bastante importantes da cidade. Podia ir ver agora mesmo à wikipedia, mas estou perguiçoso.

E a verdade é que não quero. Não quero mais o Conde de Redondo, que aposto que nem nunca existiu. Quero o Conde Redondo, esse sim, de carne-e-osso, balofo, mais carne do que osso, um humpty-dumpty inquebrantável a rolar rua abaixo, derrubando trabecas pelo caminho. Nem toda a toponímia criativa de Lisboa é má.

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JFK e o meu iphone

Há 20 anos a Newsweek que o meu pai assinava e que eu, pequena geek, ia lendo para treinar o inglês e passar por mais esperta, fez capa com uma reportagem absolutamente fenomenal sobre o assassínio de Kennedy. Tinha uma infografia bestial, acompanhada de frames do filme de Zapruder demonstrando (com uma facilidade acessível a uma mini adolescente de 13 anos sem conhecimentos de física) porque é que Lee Harvey Oswald não poderia ter assassinado o Presidente sozinho.

Uma coisa destas aos 13 anos dá corda a toda a estupidez de hormonas já em ebulição e consegui levar algumas das minhas melhores amigas a um estádio perto da loucura com o discurso repetido de “eu vou descobrir quem matou Kennedy”.

20 Anos depois, deixei o pequeno Jim Garrison dentro de mim morrer, mas confesso que o mito Kennedy e a morte de John e Robert me fascinam até hoje.

Mais. Perco algum tempo a pensar como um assassínio como o de Dallas teria sido investigado de forma diferente hoje. Sim, claro, mas não apenas devido ao facto de os headquarters do FBI serem mais CSI do que Judiciária. Devido também às redes sociais.

Aquela multidão que acompanhava o derradeiro cortejo de JFK teria corrido para o Twitter e Facebook dizendo de onde se ouviram tiros e quantos foram ouvidos. Teríamos milhares de iphones a debitarem filmes no Youtube com imagens da janela do Book Depository e também do famigerado parque de estacionamento de onde várias testemunhas alegam terem ouvido disparos. Hoje, a teoria da Bala Mágica não seria ridicularizada, teria sido provada absurda por testemunhos que, afinal, valem mais do que a palavra de um Homem – vídeos cheios de likes e shares no Facebook.

Aos 13 anos a história de Kennedy fascinava-me. A minha Avó sempre galvanizou o Presidente assassinado e a esperança que trouxe nos seus 3 anos na Casa Branca. Se não tivesse sido assassinado, talvez tivesse sido uma grande desilusão, deixando apenas um legado de bons discursos e poucas decisões. Nunca saberemos.

Mas alegra-me saber que de alguma forma, a democracia de hoje pode mais do que podia há 50 anos. E que a História já não tem de ser escrita apenas por académicos e politólogos. Dá-me esperança saber que no Egipto como na Líbia se ensina as gentes na rua a filmar e editar a sua história. Para que não sejam apenas os líderes a contar o que vivemos. Por isso ask not what your iPhone can do for you but what you and your iPhone can do for History.

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A educação da minha vida

Há um facto inescapável: nascido de onde nasci, se não fosse pelo Sistema de Educação Pública da III República (aquele que todos se apressam a atacar), eu teria feito a 4ª classe e começado logo a trabalhar.

Como sou rapaz e o mais novo da família, podia ser que me deixassem ir até ao 9º ano e se as condicionantes não fossem demasiado pesadas, podia ser que, com o talento e o esforço, pudesse sonhar com uma escola profissional e até com a Universidade. Mas acho muito duvidoso.

A verdade é que os que se apressam a atacar o Sistema de Educação não têm a noção, a mais difícil de todas, do que seria se não existisse. Apontam-lhe os defeitos, coisa que nunca fez mal a ninguém, é certo. Dizem que há demasiados alunos, que os professores não têm a formação académica e pedagógica necessárias, que não têm, nem podem ter, autoridade numa sala de aula que evoluiu para uma amálgama de demasiado grande, demasiado informe, para que se consiga fazer outra coisa que não seja ensinar o mínimo denominador comum. É verdade. Temos um Sistema de Educação que pretende ser de alcance universal mas cujos resultados são “só” generalizados.

Mas não nos iludamos. O que a Educação vende não é, ela própria, uma ilusão. É uma via para o emprego, para a riqueza e para a cidadania.

Não nos podemos esquecer do colossal esforço que representou abrir as portas da escolas a milhares de alunos, construindo uma instituição que encontrou o seu papel no centro de uma dinâmica secular que envolvia pais, primos e amigos. Antes disso, a Educação era o privilégio de uma elite. Agora chega à maior parte e não estamos satisfeitos. Ainda bem, devia chegar a todos.

Entretanto, a Educação está aqui. Mudou o paradigma de como se cresce no nosso país e quem se apressa a apontar-lhe as falhas faz-lhe o maior de todos os tributos: espera, exige mais do estado, dos outros, até de si próprio (se bem que em muito menor grau, porque a educação dos outros é que foi errada, nunca a nossa). Pois eu tenho uma novidade: se o faz, pasme-se a alma, é nas costas da educação que teve.

Desengane-se quem pensa que Educação se deve restringir ao 9º ou mesmo ao 12º ano para aqueles que, “ao contrário de nós, não consegem ou não querem mais”. Que tamanho paternalismo, pensar assim! Para quem pensa assim, eu tenho outra novidade: mesmo que queiramos trabalhar como mecânicos ou electricistas, como modistas ou escriturárias, a academia e a vida universitária é algo por que todos devem passar. Forma-nos como adultos, como cidadãos, diria até que como patrícios desta república de direitos, liberdadese garantias universais. (Aliás, a verdadeira ilusão, para mim, está em pensar que essas profissões, algumas delas, pelo menos, vão durar para sempre e que não devemos pensar para além disso.)

Sim, já o disse e repito-o, quem defende o ensino profissional é, sempre, sempre, sempre, quem nunca pôs lá os pés por se achar demasiado bom para isso. Acharmos que só a nossa educação foi a melhor, que só a nossa geração e, dentro dela, que só a nossa escola, a nossa turma, a nossa família, que “nós somos melhores” é a única ilusão em todo este debate. Uma ilusão que, levada ao extremo do absurdo e do ridículo, levaria à conclusão que a Educação só faria sentido se estivesse ao excelso nível da nossa formação, que “ou isso, ou nada”, o que poria em causa o colosso que se construiu e que mudou a vida da minha geração. Que mudou a minha vida.

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Antes da Meia-Noite

Não sei dizer quantas vezes vi o primeiro filme. Marcou a minha adolescência: a vontade do interrail que nunca fiz, as conversas que não acabam com um estranho estrangeiro (que vivi no início dos vintes com um inglês por Lisboa e Sintra). Era uma Joana quando os conheci pela primeira vez, no Liceu, de boné e jardineiras. Era outra quando os reencontrei e assisti ao reencontro numa Paris de que só então começava a aprender a gostar. E sou outra agora que os vejo nos quarentas e com filhos. São três Joanas que são eu embora também já tenha deixado de as ser.

Eles mudam e são os mesmos.

No primeiro filme ele podia não ter metido conversa com ela, ela podia não ter saído do combóio. No segundo, ele podia ter escolhido não perder o avião (e sabe deus o que eu sou doente com horários de voos e aeroportos e cenas) e agora ele podia tê-la deixado ir e ficado no hotel a mandar abaixo a garrafa de vinho depois de ouvir que a mulher a quem declarara amor incondicional talvez já não o amasse.

Nem sei dizer se o filme é bom, sei dizer que o bebi e é meio ébria que chego a casa e tento escrever antes da meia-noite.

Eu mudo e sou a mesma.

E tiro agora deste filme duas mensagens: o luxo de uma vida pode vir de diferentes riquezas das que nos ensinam a valorizar desde que nascemos e poucas vezes estamos de facto à mercê do designios da vontade alheia. 

It takes two to tango. E a vida não é dança para meninas medrosas.

Como aliás gente sábia à minha volta me tem repetido à exaustão nos últimos tempos.

*suspiro*

 

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Eficácia

Acho que estamos numa daquelas alturas em que é preciso respirar fundo e lembrar o básico. Como a função de uma greve e, pasme-se, a função de um estado.

Estava a ler este artigo de opinião sobre como a greve dos professores, por “só” prejudicar os utentes, não é eficaz. E não percebo este ponto de vista, porque esquece algo de muito básico.

O entendimento que tenho do funcionamento de uma democracia e da razão da existência de um aparelho de estado leva-me a pensar que, quando os utentes de um sistema são prejudicados, o titular do órgão de soberania que tutela esses utentes é prejudicado. Isto porque não são só os funcionários do sector público que são diferentes dos do privado. Os “patrões” também. São diferentes porque não respondem a lógicas puramente matemáticas de custo vs. retorno, seja ele político ou financeiro. Respondem perante o interesse público. São diferentes porque, regressemos ao básico, numa democracia, os “patrões” somos nós.

O retorno das medidas de um governante é o bem-estar social e o progresso, com os benefícios económicos que daí advêm no médio e no longo prazo, muito para lá da validade do seu mandato. Se têm que ter em conta o equilíbrio dessas medidas, de maneira responsável e que não deixe um herança de dívida às gerações seguintes? Claro, isso inscreve-se precisamente na tal preocupação com as repercursões para além dos seus mandatos de que falava. Mas estamos todos demasiado esquecidos de que, originalmente, o progresso é o era o ROI dos estadistas.

Se os cidadãos sofrem, os governantes sofrem porque, afinal, é para eles que trabalham. É, por isso, essa a eficácia da greve.

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Demasiado fácil

Chechenos, provavelmente nascidos na Turquia, a viver nos Estados Unidos há um ano e com uma bolsa de estudos. Não gosto da maneira como isto soa. Ou melhor, não gosto da maneira como vão fazer isto soar. De origem russa e muçulmana, ao mesmo tempo… é quase demasiado fácil.

O principal problema com as novas descobertas que vão sendo feitas acerca dos presumíveis autores do atentado na Maratona de Boston não é quem eles são e o que os levou a agir assim.

O principal problema é a facilidade com esses dados podem ser distorcidos para enquadrar uma narrativa quenão tem nada a ver com a realidade profunda das motivações e a raiz dos problemas.

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É a Alemanha quem está a mais no euro?

Lembro-me daquele momento em que, depois de ver a squadra azzura bater a equipa alemã nas meias-finais do Campeonato da Europa, um grupo de tiffosi italianos começou a cantar “La Germania fuori dall’Europa! La Germania fuori dall’Europa!” (“A Alemanha para fora da Europa!”).

A ler a última alocação de George Soros sobre o futuro do euro e da União Europeia, veio-me à cabeça esse momento. Não que o respeitado economista queira o colosso germânico expulso do concerto das nações do Velho Continente, até porque essa exclusão já correu muito mal no passado, mas lá que brinca com a ideia de um euro sem a Alemanha, lá isso brinca.

Face à indisponibilidade de Berlim para apoiar a criação dos chamados “eurobonds” e oferecer, de uma penada, a sua estabilidade à gestão da dívida pública do Sul da Europa e um balão de oxigénio que daria a oportunidade para verdadeiras reformas em países como Portugal, uma das hipóteses levantadas é que os outros países o façam… sem a Alemanha.

Destaco dois elementos deste artigo:

1. O valor e credibilidade dos eurobonds, sem a Alemanha, continuaria a ser maior do que os títulos do tesouro dos Estados Unidos ou do Japão.

2. Os alemães não podem esperar, paradoxalmente, que todos os outros países sigam o seu exemplo de formiguinha, que aumenta as exportações e diminui as importações, porque é uma impossibilidade matemática que todos os países o façam em simultâneo. O crescimento das exportações alemães fez-se em cima do crescimento das importações dos outros países. Óbvio.

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